Verbete
Biografia
Joseph Spence foi um dos guitarristas mais originais e difíceis de imitar surgidos no Caribe no século XX. Nascido em 3 de agosto de 1910, na pequena comunidade de Small Hope, na ilha de Andros, Bahamas, Spence desenvolveu uma linguagem tão particular no violão que, quando o pesquisador Samuel Charters o ouviu pela primeira vez, em 1958, chegou a procurar um segundo músico escondido nas proximidades. Parecia impossível que todas aquelas linhas de baixo, acordes, melodias e contratempos estivessem saindo de um único instrumento.
Filho de um pastor, Spence cresceu cercado pela música religiosa e pelas tradições populares das Bahamas. Começou a tocar violão ainda adolescente e, por volta dos 14 anos, já acompanhava bailes locais com a banda de seu tio-avô, Tony Spence. A música, entretanto, nunca foi sua principal fonte de renda. Ao longo da vida, trabalhou como pescador de esponjas, agricultor, pedreiro, carpinteiro e, mais tarde, vigia noturno.
Foi justamente entre os trabalhadores das Bahamas que Spence absorveu um dos elementos fundamentais de sua música: a tradição do rhyming, forma de canto coletivo associada especialmente aos pescadores de esponjas. Nela, diferentes vozes desenvolviam partes rítmicas e melódicas simultaneamente. Spence transportou essa ideia para o violão, fazendo o instrumento parecer executar várias vozes independentes ao mesmo tempo.
Sua técnica combinava fingerpicking, linhas móveis de baixo, síncopes, acordes quebrados e improvisações constantes. Era comum utilizar afinação Drop D, baixando a sexta corda de Mi para Ré e ampliando a presença dos graves. Sobre essa base instrumental extraordinariamente complexa, Spence adicionava uma voz igualmente inconfundível: murmúrios, fragmentos de letras, grunhidos, risadas e vocalizações quase improvisadas.
Embora seja frequentemente incluído na história do blues acústico, classificá-lo simplesmente como bluesman seria limitar sua música. O repertório de Joseph Spence atravessava folk bahamense, gospel, spirituals, calypso, blues e música tradicional caribenha. Durante um período trabalhando como trabalhador agrícola migrante no sul dos Estados Unidos, ele também entrou em contato mais diretamente com o blues norte-americano.
A transformação de Spence de músico conhecido apenas localmente para figura cultuada internacionalmente começou em julho de 1958. Os pesquisadores Samuel Charters e Ann Danberg Charters estavam em Andros procurando manifestações da música tradicional das Bahamas quando encontraram Spence sentado sobre uma pilha de tijolos, tocando violão.
Charters ficou impressionado. As gravações realizadas naquele encontro foram lançadas pela Folkways em 1959 como Bahaman Folk Guitar: Music of the Bahamas, Vol. 1. O disco apresentou ao público norte-americano um guitarrista que simplesmente não soava como nenhum outro.
A partir daí, Spence tornou-se uma referência entre músicos ligados ao folk revival dos Estados Unidos. Novas sessões resultaram em álbuns como Happy All the Time, de 1964, e posteriormente Good Morning Mr. Walker, gravado em 1971. Também realizou apresentações nos Estados Unidos e participou de importantes festivais de música folk.
O mais impressionante é que Spence jamais abandonou completamente sua vida cotidiana nas Bahamas para assumir a identidade tradicional de uma estrela da música. Continuou ligado à comunidade e compartilhava sua maneira de tocar com músicos e visitantes que o procuravam.
Entre esses visitantes estavam nomes que mais tarde ajudariam a carregar sua influência para novas gerações. Ry Cooder e Taj Mahal, por exemplo, viajaram até as Bahamas para conhecê-lo e aprender com sua música. Richard Thompson, Catfish Keith e integrantes do Grateful Dead também estão entre os músicos cuja obra foi marcada pelo estilo de Spence.
Sua abordagem chegou a ser comparada à de Thelonious Monk: ambos podiam desconstruir uma melodia conhecida e reconstruí-la de maneira aparentemente torta, inesperada e absolutamente pessoal. No caso de Spence, músicas tradicionais, hinos religiosos e canções populares tornavam-se matéria-prima para extensas improvisações.
Talvez esse seja seu maior legado. Joseph Spence mostrou que virtuosismo não precisa significar perfeição acadêmica. Sua guitarra respirava, tropeçava propositalmente, antecipava notas, atrasava outras e transformava músicas conhecidas em algo inteiramente novo.
Joseph Spence morreu em 18 de março de 1984, em Nassau, Bahamas, aos 73 anos. Décadas depois, gravações inéditas continuaram aparecendo. Em 2021, a Smithsonian Folkways lançou Encore: Unheard Recordings of Bahamian Guitar and Singing, reunindo registros feitos em 1965 e oferecendo uma nova oportunidade de ouvir Spence no auge de sua criatividade.
Hoje, Joseph Spence ocupa uma posição singular na história do violão. Ele pertence ao blues, ao folk, ao gospel e ao Caribe sem pertencer exclusivamente a nenhum deles. Seu estilo foi tão pessoal que praticamente criou uma categoria própria.
Catálogo
Discografia
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Happy All the Time
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Living on the Hallelujah Side
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Glory
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The Spring of Sixty-Five
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Encore: Unheard Recordings of Bahamian Guitar and Singing
Essenciais
Músicas emblemáticas
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1
1959 5:45Coming in on a Wing and a Prayer
Jimmy McHugh -
2
1959 5:00Brownskin Gal
Norman Span -
3
1959 5:50There Will Be a Happy Meeting in Glory
[traditional] -
4
1959 4:25Jump in the Line
Joseph Spence
Comunidade
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